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Brasília, 2 de novembro de 2026
Análise política de Toryel Nunes, escritor e analista político da EBN Newsroom
A administração da presidente Giovana Grior atravessa um dos momentos mais complexos desde o início de seu mandato. Após assumir o comando do país com a promessa de reorganizar as contas públicas, recuperar a capacidade administrativa do Estado e estabelecer novas prioridades para o Brasil, o governo chega ao fim de outubro apresentando avanços em determinadas frentes, mas também acumulando problemas estruturais que colocam em dúvida a capacidade de execução de seu próprio planejamento.
A avaliação da atual gestão exige observar não apenas as decisões presidenciais, mas também o funcionamento da equipe governamental, a situação financeira do Estado, a retomada das obras públicas, a arrecadação federal e a capacidade das instituições de cumprir suas atribuições.
O quadro que emerge é o de um governo que demonstra disposição para movimentar a máquina pública, mas que ainda enfrenta dificuldades para organizar suas prioridades. A retomada das construções representa um sinal positivo, porém a ausência de arrecadação federal, a paralisação prolongada da Receita Federal e a sobrecarga administrativa revelam uma contradição: o governo tenta acelerar sua agenda de realizações enquanto setores essenciais da própria administração permanecem sem funcionamento adequado.
A promessa de reorganização financeira e a realidade do Tesouro
Um dos principais desafios herdados e reconhecidos pela administração Giovana Grior é a situação financeira do governo federal. Em agosto, a presidente já havia manifestado preocupação com a falta de recursos no Tesouro Nacional, defendendo que a reorganização das finanças deveria preceder uma expansão mais ampla dos investimentos públicos.
Naquele momento, a presidente mencionou a necessidade de criar mecanismos de arrecadação, incluindo novos tributos federais, além de negociar reduções de impostos municipais. A intenção declarada era ampliar a capacidade financeira do Estado sem simplesmente aumentar a carga tributária de maneira generalizada.
A preocupação não era isolada. Informações anteriormente apresentadas sobre a situação fiscal apontavam para a ausência de entradas financeiras nas contas públicas desde 2025. A interrupção das atividades da Foodbras, que deixou de gerar lucros após mudanças relacionadas às restrições de comunicação, também contribuiu para reduzir as fontes de receita disponíveis ao governo.
Entretanto, a situação da arrecadação continua preocupante. Em 31 de outubro, foi informado que os impostos federais já existentes ainda não haviam produzido qualquer arrecadação, com resultado registrado em zero. O problema foi associado à paralisação da Receita Federal, cujas unidades permanecem fechadas há aproximadamente quatro meses.
Esse é, provavelmente, um dos pontos mais graves da atual gestão.
Não se trata apenas de uma dificuldade contábil ou de uma meta fiscal não alcançada. A Receita Federal é uma estrutura fundamental para a operacionalização da política tributária. Quando suas unidades permanecem fechadas e seu sistema não funciona adequadamente, o governo perde capacidade de transformar sua legislação tributária em arrecadação efetiva.
A existência de impostos, por si só, não garante recursos ao Tesouro. É necessário que a estrutura responsável por administrá-los esteja funcionando.
Nesse sentido, a situação revela uma distância considerável entre o planejamento econômico anunciado pela Presidência e a execução administrativa necessária para sustentá-lo.
Obras públicas: retomada representa avanço, mas também expõe problemas de planejamento
Se a arrecadação representa uma das maiores fragilidades do governo, a infraestrutura aparece como uma das áreas em que a administração busca demonstrar resultados.
Em outubro, foram anunciadas movimentações para retomar obras públicas que haviam sido interrompidas durante o período de reorganização orçamentária. Entre os projetos mencionados estão a construção da cidade de Gramado, com ruas, residências, infraestrutura, igrejas e outras estruturas, além da Ponte da Amizade, bases militares e instalações relacionadas ao Tesouro Nacional.
A retomada é relevante porque demonstra uma mudança em relação à política de suspensão de obras adotada no início do mandato. A presidente Giovana Grior havia determinado a interrupção das construções públicas como medida para recuperar o orçamento federal durante a crise fiscal. A previsão inicial era de uma suspensão por dois meses, mas o período acabou se prolongando.
A Ponte da Amizade tornou-se um exemplo particularmente representativo desse problema. A construção havia sido iniciada durante uma visita do então presidente Jair Bolsonaro, mas permaneceu incompleta após a suspensão das atividades. Enquanto o lado paraguaio avançava, o lado brasileiro, em Foz do Iguaçu, continuava sem movimentação. Até as informações divulgadas em outubro, não havia uma data oficial de retomada.
O retorno das obras anunciado no fim do mês pode representar uma mudança importante nesse quadro. Entretanto, é necessário distinguir a autorização ou determinação de retomada da conclusão efetiva dos projetos. O anúncio de que as atividades voltaram a andar não significa, automaticamente, que todas as construções estejam em ritmo regular ou próximas da entrega.
Há também uma questão financeira que precisa ser considerada: como sustentar uma agenda de obras em um país cuja arrecadação federal permanece zerada?
A expansão da atividade pública exige planejamento, recursos e capacidade operacional. A retomada das construções é positiva, mas precisa estar acompanhada de uma estrutura financeira que permita sua continuidade. Caso contrário, o governo corre o risco de substituir uma paralisação generalizada por uma sucessão de retomadas difíceis de manter.
Outro elemento que ganhou relevância nas últimas declarações públicas foi a sobrecarga administrativa enfrentada pela equipe governamental.
Com Giovana Grior na Presidência e Luis Francis exercendo a Presidência da República, a dinâmica de funcionamento do Executivo passou a ser marcada por uma intensa quantidade de determinações relacionadas ao andamento das obras públicas.
Segundo o relato do diretor da Receita Federal, Jair Messias Bolsonaro, Luis Francis estaria ordenando diariamente o avanço de aproximadamente três obras. As determinações exigiriam mobilização constante dos funcionários e integrantes do governo, reduzindo o tempo disponível para outras atividades administrativas.
Bolsonaro também relatou que precisa responder frequentemente a questionamentos do vice-presidente sobre dados oficiais, obras, pessoas e diferentes assuntos relacionados à administração pública. Na avaliação apresentada pelo diretor, a quantidade de cobranças acaba dificultando o trabalho da equipe e prejudicando a execução de outras prioridades.
É importante reconhecer que fiscalizar obras, questionar informações e cobrar resultados são atribuições legítimas de uma autoridade pública. Um governo não deve funcionar sem questionamentos internos, especialmente quando envolve recursos públicos e decisões administrativas relevantes.
Entretanto, existe uma diferença entre fiscalização organizada e concentração excessiva de demandas sobre uma equipe que já enfrenta dificuldades operacionais.
O problema não está necessariamente em cobrar resultados, mas em como essas cobranças são organizadas. Quando diversas determinações são feitas simultaneamente, sem uma divisão clara de responsabilidades e prioridades, o resultado pode ser justamente o contrário do pretendido: funcionários sobrecarregados, atividades essenciais adiadas e dificuldade de concluir tarefas.
A situação da Receita Federal ilustra esse conflito. Enquanto o governo determina o avanço de diferentes construções, o órgão responsável pela arrecadação permanece sem funcionamento regular.
Na minha avaliação, o Executivo precisa estabelecer uma hierarquia mais clara de prioridades. Não é razoável que a administração consiga mobilizar esforços diariamente para diferentes obras, mas ainda não tenha conseguido restabelecer plenamente o funcionamento de uma instituição indispensável à própria manutenção financeira do Estado.
Outro tema importante para compreender a situação do governo é o Projeto de Lei nº 16, apresentado em outubro, que institui um regime extraordinário de reestruturação e extinção da dívida salarial do poder público.
A proposta trata de um passivo estimado em aproximadamente US$ 500 milhões, acumulado desde 13 de março de 2022. O texto alcança obrigações remuneratórias de diferentes áreas dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, observados os critérios estabelecidos no projeto.
A dimensão do problema é significativa. Segundo a exposição de motivos da proposta, a quitação ordinária do passivo poderia levar aproximadamente 1.428 semanas, o equivalente a cerca de 29 anos.
O projeto também apresenta uma informação especialmente delicada: estima-se que 80% do passivo esteja associado a servidores falecidos.
A proposta busca extinguir os passivos abrangidos, incluindo principal, juros e encargos diretamente relacionados, sem estabelecer uma compensação financeira geral para todos os valores eliminados. Portanto, é fundamental distinguir a extinção de uma obrigação do pagamento efetivo de salários atrasados.
A iniciativa demonstra que o governo reconhece a dimensão histórica do problema e tenta apresentar uma solução legislativa para uma dívida que se tornou difícil de administrar pelos mecanismos ordinários.
Por outro lado, a existência de um passivo dessa magnitude evidencia a profundidade das dificuldades financeiras acumuladas pelo Estado. O projeto pode reorganizar obrigações antigas, mas não substitui a necessidade de construir um sistema capaz de impedir que novos atrasos sejam produzidos.
A questão central não é apenas o que fazer com a dívida passada, mas como garantir que o governo não volte a acumular compromissos que não consegue cumprir.
No campo político, Giovana Grior chegou ao poder após vencer as eleições de junho e julho de 2026 pelo Partido Missão, derrotando Jair Bolsonaro no segundo turno. Sua vitória, com 57,5% dos votos, marcou a chegada da primeira mulher à Presidência da República.
O resultado eleitoral estabeleceu uma nova configuração política, com o Partido Missão assumindo protagonismo nacional e ampliando sua presença em diferentes governos estaduais e municipais.
A mudança de governo, entretanto, trouxe consigo a responsabilidade de administrar uma estrutura pública com problemas financeiros e operacionais. A vitória eleitoral concedeu legitimidade política à nova administração, mas a capacidade de transformar essa legitimidade em resultados depende de organização institucional.
Um dos episódios que demonstraram as dificuldades de coordenação ocorreu durante a discussão sobre um crédito de até US$ 1,5 milhão autorizado pelo Senado para obras públicas e infraestrutura em Santos. Luis Francis questionou a destinação dos recursos diante das controvérsias envolvendo Pedro Henrique Costa, enquanto parlamentares apresentaram posições contrárias e favoráveis à manutenção do crédito.
O episódio revelou divergências sobre a gestão de recursos públicos e sobre os critérios que devem orientar investimentos em projetos associados a figuras politicamente controversas.
Não houve confirmação de que o crédito tenha sido formalmente suspenso ou revogado. Ainda assim, a discussão demonstrou que a administração precisa lidar não apenas com problemas financeiros, mas também com conflitos políticos e divergências sobre a condução de projetos públicos.
A coordenação entre Presidência, vice-presidência, ministérios e demais instituições será determinante para evitar que decisões administrativas se transformem em disputas que atrasem ainda mais a execução das políticas governamentais.
O balanço da gestão até 31 de outubro
Ao observar o conjunto de acontecimentos, considero que o governo Giovana Grior apresenta uma avaliação dividida. Existem iniciativas relevantes, mas as dificuldades de execução continuam sendo maiores do que o governo parece conseguir administrar com eficiência.
Na área de infraestrutura, a retomada das obras representa um avanço em relação ao período de paralisação. A construção de Gramado, a movimentação em torno da Ponte da Amizade e os projetos relacionados às bases militares e ao Tesouro Nacional demonstram uma tentativa de recuperar a capacidade de investimento do Estado.
Na área financeira, entretanto, o desempenho é preocupante. A arrecadação federal registrada em zero, associada à paralisação da Receita Federal, representa uma falha operacional de grande dimensão. Não é possível considerar a política econômica plenamente funcional enquanto o órgão responsável pela arrecadação não consegue operar normalmente.
Na administração pública, a sobrecarga relatada por Jair Messias Bolsonaro aponta para problemas de distribuição de responsabilidades e organização das prioridades. A quantidade de ordens e questionamentos atribuída a Luis Francis pode demonstrar uma tentativa de acelerar a máquina pública, mas também evidencia o risco de uma gestão excessivamente concentrada em cobranças imediatas.
Na questão salarial, o PL nº 16 representa uma tentativa de enfrentar um passivo histórico expressivo, mas sua proposta ainda precisa ser analisada dentro de seu estágio legislativo e de seus efeitos concretos. A existência de uma dívida estimada em US$ 500 milhões não pode ser tratada como um problema resolvido apenas pela apresentação de um projeto.
O governo, portanto, apresenta uma característica contraditória: demonstra disposição para fazer o Estado avançar, mas ainda não conseguiu assegurar que todas as estruturas necessárias para esse avanço estejam funcionando.
A avaliação é que a administração Giovana Grior não pode ser considerada um fracasso completo, mas também está longe de apresentar um desempenho satisfatório em áreas fundamentais.
Existe atividade política, existem projetos, existem determinações para retomada de obras e existem propostas legislativas destinadas a enfrentar problemas históricos. O governo não está completamente paralisado. Pelo contrário, há uma tentativa evidente de acelerar diferentes setores da administração.
O problema é que movimentação não significa necessariamente eficiência.
Um governo pode determinar a construção de cidades, ordenar a retomada de pontes, mobilizar equipes e anunciar mudanças institucionais. Mas, se não consegue arrecadar recursos, manter seus órgãos funcionando e distribuir adequadamente as responsabilidades administrativas, sua capacidade de execução fica comprometida.
A Receita Federal é hoje o exemplo mais evidente dessa contradição. Não faz sentido construir uma agenda de expansão das atividades públicas sem garantir o funcionamento da estrutura responsável por sustentar financeiramente o Estado.
Também considero que Luis Francis precisa encontrar um equilíbrio entre fiscalização, cobrança e execução. A vice-presidência em exercício tem um papel importante na condução administrativa, mas a eficiência não pode ser medida apenas pela quantidade de ordens emitidas ou de obras colocadas em movimento. O resultado precisa ser avaliado pela capacidade de concluir tarefas, resolver problemas e manter os serviços públicos funcionando.
Quanto à presidente Giovana Grior, sua principal responsabilidade neste momento é garantir que a administração tenha direção e unidade. A reorganização financeira anunciada no início do mandato precisa deixar de ser apenas uma prioridade declarada e se transformar em uma estrutura efetivamente operacional.
O Brasil precisa de uma Receita Federal funcionando, de arrecadação regular, de obras com continuidade, de planejamento financeiro e de uma equipe governamental capaz de trabalhar sem que uma área comprometa permanentemente o funcionamento da outra.
O fim de outubro apresenta, portanto, um governo em fase de tentativa de recuperação. A retomada das obras é um sinal positivo, mas a crise de arrecadação e as dificuldades administrativas continuam sendo obstáculos centrais.
A pergunta que deverá orientar a avaliação dos próximos meses não é quantas obras o governo conseguirá ordenar diariamente, quantas reuniões realizará ou quantas propostas apresentará. A pergunta é quantas dessas iniciativas serão efetivamente concluídas e se o Estado conseguirá recuperar sua capacidade de funcionamento.